Centrais Automáticas Passo a Passo

Pouco tempo após a invenção do telefone e das centrais de comutação, surgiu a idéia de automatizar as ligações entre as várias linhas existentes. Ou seja, a pessoa que desejasse telefonar, acionava mecanismos que enviavam sinais elétricos à central automática, ligando seu aparelho ao telefone da pessoa com quem desejava falar sem a ajuda das telefonistas .

Em 1879, os irmãos Thomas e Daniel Connelly, juntamente com Thomas J. McTighe, patentearam o primeiro sistema em que um usuário podia controlar um mecanismo de comutação à distância.


Esquema do sistema de comutação automática de Connely e
McTighe, mostrando acima o dispositivo principal localizado na central telefônica, e abaixo o sistema que deveria existir em cada telefone

Como funciona...

O aparelho, bastante primitivo, baseava-se nos telégrafos ABC de Wheatstone (físico inglês) e nunca chegou a ser usado. A parte principal do sistema era uma roda dentada, semelhante às usadas em relógios, que movida por um eletroímã, percorria o espaço de um “dente” por vez.

Quando o eletroímã recebia um pulso elétrico, atraía uma barra metálica que fazia a roda dentada girar um “espaço”, movendo um braço de metal que, transmitia os pulsos elétricos sucessivamente e estabelecia contato com as demais linhas.

Em 1884, Ezra Gilliland, da companhia Bell, desenvolveu um sistema de comutação automática mais simples, porém semelhante ao dos irmãos Connely e McTighe que podia trabalhar com até 15 linhas. Nesse sistema, que também não chegou a ser usado na prática, havia um contato metálico que pulava de uma posição para outra, quando o usuário apertava um botão, determinando o tipo de conexão que era estabelecida.

No entanto, um avanço realmente importante e surpreendente, ocorreu em 1889, quando um agente funerário Almon B. Strowger, da cidade de Kansas, desenvolveu um sistema de comutação automático que realmente funcionava.

O Sistema Automático Strowger

Almond Strowger

Conta a história que Strowger desconfiava que as telefonistas desviavam, propositalmente, as ligações destinadas a ele para um outro agente funerário, seu concorrente. Por isso, resolveu inventar um sistema que dispensasse o intermédio delas.

Após vários estudos e tentativas, Strowger construiu, com a ajuda de um relojoeiro, um sistema que atenderia 100 linhas telefônicas, que foi patenteado em 1891. A invenção deu tão certo que, no mesmo ano, Strowger fundou a Automatic Electric Company para comercializá-la.

A primeira central telefônica automática a usar o sistema de Strowger, foi aberta em 1892 em La Porte, em Indiana, EUA. Na década que seguiu, foram instaladas mais de 70 centrais destas nos Estados Unidos.

O que Strowger fez foi aperfeiçoar os aparelhos anteriores, com uma diferença bastante importante: o sistema se movia dentro de um cilindro podendo girar, tanto em torno de seu eixo, como também para cima e para baixo.

Como funciona...

O cilindro tinha, em sua parte interna, 10 fileiras com 10 contatos metálicos cada uma, totalizando 100 contatos. A “vassoura” ou “escova” metálica central podia então se deslocar facilmente e escolher um dos 100 contatos que representavam, cada um deles, uma linha telefônica.

 
O sistema Strowger de comutação automática: esquema (esquerda)
e fotografia de um dispositivo de 1902 (direita)

 


O dispositivo existente na própria central telefônica, que faz as conexões entre as linhas.

 

O dispositivo colocado nos aparelhos dos usuários que enviam os sinais à central, informando o número do telefone com o qual se quer fazer conexão.

 

Representação esquemática de um dispositivo de comutação
com 100 linhas, cada uma delas ligada a um telefone. O dispositivo
precisa conectar os fios do telefone que está chamando (à esquerda)
com qualquer uma das conexões dos outros aparelhos

Inicialmente, o funcionamento era bem diferente: o usuário tinha dois botões na caixa do telefone que deviam ser pressionados um certo número de vezes para chamar o número desejado. Por exemplo, para se conectar ao telefone número 34, era preciso apertar o primeiro botão 3 vezes e o segundo botão 4 vezes. Ao apertar cada um dos botões, um pequeno pulso elétrico era enviado à central telefônica, fazendo a roda “dentada” se mover um passo e acionar o aparelho de telefone desejado.

Como funciona...

Quando uma pessoa queria telefonar para outra, ela tirava o telefone do gancho, conectando-se assim à central telefônica, e depois apertava os botões do seu aparelho.

Na central, o dispositivo ligado ao aparelho que fazia a chamada se movia na direção vertical e, depois na rotatória, girando dente por dente até fazer a conexão com o número desejado.

Em seguida, a pessoa que chamava girava a manivela do magneto, acionando a campainha do outro aparelho.

Durante toda a conversa, o dispositivo Strowger se mantinha na mesma posição, ligando as duas linhas na central telefônica. Ao final, era preciso apertar um botão que fazia o dispositivo voltar a sua posição original. Se a pessoa não apertasse esse botão, as linhas continuavam conectadas.


O dispositivo original de Strowger era capaz de conectar apenas uma das 100 linhas telefônicas. Seria possível construir cilindros com maior número de contatos, o que era, obviamente, mais complexo do ponto de vista técnico.

Além dessa limitação, havia alguns outros problemas: para cada aparelho de telefone ligado à central, era preciso conectar grande quantidade de fios. Além dos que transmitiam a voz e dos que enviavam os sinais elétricos, eram necessários vários outros fios para mover o dispositivo automático, o que encarecia bastante o sistema devido ao custo da fiação na época.

Cada aparelho de telefone conectado à rede precisava de seu próprio dispositivo na central, que também eram caros e ficavam durante a maior parte do tempo parados, devido ao pouco uso que se fazia do telefone na época.

Um outro problema era que não havia um mecanismo que impedisse uma pessoa de conectar-se a um telefone que estivesse sendo usado. Com isso, ela podia ouvir e se intrometer na conversa, o que não acontecia nas centrais com telefonistas, que sempre verificavam se a linha estava ocupada.

Por fim, o problema estava na cabeça das pessoas que, ao terminar a conversa, deveriam lembrar-se de apertar um botão, fazendo com que o dispositivo Strowger, voltasse à posição inicial; porém, isso nunca acontecia.


Como funciona a comutação automática

O aspecto essencial das centrais telefônicas automáticas é a possibilidade de manipular interruptores elétricos à distância para conectar duas linhas telefônicas. Os dois dispositivos básicos das centrais telefônicas que precisam ser compreendidos são os seletores, com motores de passo, e os relês.

Outra coisa importante é entender como funcionava o antigo sistema de discagem.



Seletores com motores de passo

Em algumas das antigas centrais telefônicas automáticas ou eletromecânicas, a conexão entre uma linha e outra era feita por meio de interruptores que giravam, movendo pequenas peças de metal e mudavam de posição, fazendo com que estas peças encostassem em diferentes terminais, transmitindo os pulsos elétricos e conectando às diferentes linhas existentes.

É fácil compreender a estrutura de um interruptor giratório de várias posições, observando seus contatos elétricos. Difícil é entender a forma de controle da rotação desse dispositivo, que era feito por meio do chamado ‘motor de passo’, mecanismo acionado pelos sinais elétricos enviados por cada telefone para a central.

Para entender o papel de cada um destes dispositivos, vamos pegar como exemplo os também antigos relógios de pêndulo. Não é novidade pra ninguém que para um relógio funcionar bem seus ponteiros devem se mover na velocidade certa. Nos relógios antigos, fazê-los girar corretamente era função do pêndulo que, a cada oscilação, dava um pequeno empurrão na roda dentada. Esta roda, bastante parecida com uma coroa, era o dispositivo que controlava os ponteiros e que só poderia girar um dente a cada ida e a cada volta do pêndulo.

Agora, imagine um sistema parecido com esse, só que se no lugar de um pêndulo houvesse uma pequena barra de ferro parada próxima a um eletroímã. Quando uma corrente elétrica passava pelo eletroímã, ele atraia a barra de ferro que só volta a sua posição inicial com o fim dessa corrente. A cada movimento da barra de ferro, a roda dentada girava um dente. Se ligássemos e desligássemos esta corrente algumas vezes, a barra de ferro faria a roda dentada girar o mesmo número de dentes. Isto tornava possível que cada pessoa, por meio dos botões, emitisse sinais elétricos que faziam a roda chegar à posição desejada. Ou seja, apertando um botão 3 vezes, por exemplo, a roda dentada percorria 3 espaços.

O movimento da roda dentada era controlado à distância, por meio da eletricidade, bastando que houvesse uma pilha ligada a um interruptor capaz de fazer a conexão com cada um dos terminais.

Relês

Outro tipo de dispositivo importante é o relê, um tipo de interruptor que liga ou desliga a conexão entre dois aparelhos quando a eletricidade passa por um eletroímã, movimentando duas placas metálicas que se encostam e se separam. Existem vários tipos de relês.

Em alguns deles, a placa de ferro que é atraída, encosta em um contato e permite a passagem da eletricidade, que é interrompida quando o eletroímã é desligado.

Em outros, há dois eletroímãs que, puxando a placa de ferro para um lado ou para o outro, permitem a passagem da corrente elétrica e estabelecem o contato. Ao enviar um segundo pulso de eletricidade para o relê, um eletroímã atua sobre o segundo, movendo a placa de ferro na direção contrária e, assim, interrompendo o contato.


Há também relês com dois contatos. Quando a placa de ferro é atraída para um lado, ela estabelece uma ligação elétrica com um deles. Quando é atraída para o outro lado, faz contato com o outro .

Um sistema de relês recebe sinais elétricos e estabelece uma ligação telefônica. Podem estar em duas posições: “ligados” ou “desligados”. Quando um relê desse tipo está desligado, não deixa passar eletricidade, mas, se receber um pulso elétrico, ele liga e permanece ligado como o interruptor de parede que apertamos e fica ligado.



Esquema mostrando quatro relês conectados. O relê azul
está ligado, e deixa passar eletricidade de um lado para o outro.
Os vermelhos estão desligados

Se um relê estiver ligado e receber um pulso, ele o transmite para o relê seguinte que fica ligado e, logo em seguida, se desliga.



Esquema mostrando o efeito de um pulso elétrico
no sistema de relês. O relê que estava ligado (acima, azul)
passa o pulso para o relê seguinte, que se liga; e o que
estava ligado se desliga

Agora, imagine uma seqüência de vários relês desse tipo, em que o primeiro está inicialmente ligado e, todos os outros, desligados. Se esse sistema receber vários pulsos elétricos, cada relê irá desligar e transmitir o pulso recebido para ligar o seguinte. Ou seja, com o primeiro pulso, o primeiro relê se desliga, ligando o segundo. Com o próximo pulso, o segundo relê se desliga, acionando o terceiro, e assim por diante. Uma seqüência de pulsos elétricos vai “escolher” qual dos relês ficará ligado conduzindo a corrente elétrica.

Se cada um deles controlar uma ligação elétrica diferente, será possível, enviando sinais elétricos de um ponto distante, escolher qual das ligações será feita.


Bibliografia:
- MARTINS, Roberto - A Fundamentação da Telefonia através da História - Parte 1: Da Invenção ao Início do Século XX (pesquisa realizada para a Fundação Telefônica, em 2002)


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