|
Transmissão a grandes distâncias - Bobinas
Após todo o trabalho de aperfeiçoamento do telefone, no final do
século XIX a preocupação passou a ser quais seriam as
demais possibilidades de melhoria na transmissão telefônica a
grandes distâncias.
Elementos a serem modificados:
|
Transmissor
Aparelho que produz o sinal telefônico.
|
|
Receptor
Aparelho que nos permite ouvir o sinal telefônico.
|
|
Linha de transmissão
Rede elétrica por onde passa o sinal telefônico.
|
Medidas a serem tomadas:
|
Aumentar a potência do transmissor
Tornar o sinal mais forte na origem.
|
|
Aumentar a sensibilidade do receptor
Tornar audível um sinal mais fraco.
|
|
Melhorar a transmissão
Fazer com que o sinal percorra corretamente toda a linha telefônica.
|
Objetivos das mudanças na linha telefônica:
|
Amplificar o sinal em pontos intermediários Reforçar
o sinal após ter perdido força.
|
|
Reduzir a atenuação
Evitar que o sinal perca força com a distância.
|
|
Reduzir a distorção
Manter a boa qualidade da voz.
|
|
Reduzir ruídos da linha
Ruídos produzidos por causas externas.
|
Não havia grandes dificuldades em aumentar a potência do
transmissor, bastava, por exemplo, usar baterias mais fortes.
Aumentando a potência do transmissor, a corrente elétrica no fio
também aumenta, perdendo assim muita energia, já que a
potência perdida nos fios é igual ao quadrado da
corrente elétrica. Ou seja, se a corrente elétrica
é dobrada, a perda de energia é quadruplicada, por isso, quando
as correntes elétricas são fortes, o sinal telefônico de um
fio passa a interferir mais fortemente nos vizinhos.
Isso quer dizer que para aumentar a corrente elétrica, seria
necessário afastar os fios uns dos outros nos postes, o que criaria
muitos problemas. Como já havia uma rede telefônica
constituída, aumentar a força das correntes elétricas nos
fios significava mudar todos os postes de lugar. Assim, por motivos
práticos, os técnicos, em 1890, desistiram dessa idéia
descartando também o aumento de potência dos transmissores.
Aumentar a sensibilidade do
receptor tampouco seria uma solução, já que
não resolveria problemas como sinais telefônicos fracos,
distorcidos e cheios de ruídos; pelo contrário, só
tornaria sua transmissão mais potente agravando ainda mais a
situação.
Concluiu-se então que a solução deveria estar na
mudança da própria linha de transmissão. A partir de 1892,
com a idéia de amplificar o sinal em pontos intermediários, foram
instalados os “
repetidores” (repeaters) – sistema utilizado
com sucesso nos telégrafos. Repetidor era uma estrutura formada por um
receptor e um transmissor que, encostados um ao outro, recebiam os sinais
telefônicos que eram transmitidos com mais força.
No entanto, este sistema ainda não resolvia os problemas de ruídos
e distorção; pelo contrário: cada vez que o sinal
telefônico passava pelo repetidor, mesmo ganhando força, perdia
qualidade.
Em meados de 1890, William Thomson, mais conhecido como Lord Kelvin,
desenvolveu uma teoria sobre a
atenuação dos sinais telegráficos com a
distância, levando em conta duas propriedades dos fios:
resistência e
capacitância . Analisando estas duas propriedades
elétricas das linhas, ele concluiu que havia um limite na
distância que os sinais telefônicos poderiam alcançar e que
isso dependia, principalmente, da resistência dos fios.
Uma solução possível e eficiente seria a
substituição da fiação por fios de cobre, o que
constituía, porém, uma alternativa um pouco cara. Primeiro
porque, quanto mais distantes as linhas, mais grossos deveriam ser os fios, e
depois porque seria preciso trocar os postes existentes por outros que
suportassem o peso desta nova fiação. Com isso, sob o ponto de
vista prático, parecia ser inviável construir linhas que
ultrapassassem 800 milhas, ou 1.300 km.
1.1. Bobinas de carga (loading coils)
A solução encontrada no início do século XX para a
melhoria das linhas de grande distância, foi o uso das “
bobinas de carga” (em inglês, loading coils).
Com este tipo de dispositivo, foi possível atingir distâncias de
centenas de milhas ou quilômetros, sem perder a qualidade da
transmissão.
Quando uma corrente elétrica percorre um fio, ela o aquece e perde
energia. Para reduzir a quantidade de energia perdida, é possível
diminuir a resistência elétrica do fio usando fios mais grossos,
como já vimos, ou aplicando um outro método, cujo
princípio físico pode ser entendido por meio da seguinte
analogia:
Faça a experiência...
Pense na imagem de uma mangueira - a que você costuma usar em sua casa para
regar as plantas - estendida no chão, com uma de suas pontas presa à torneira.
Se você pegar a outra ponta e balançá-la, horizontalmente, de um lado para o
outro, produzirá uma onda. Essa onda, no entanto, desaparecerá rapidamente,
devido ao atrito da mangueira com o chão. Para alcançar maiores distâncias,
temos três alternativas:
|
1) Diminuir o atrito da mangueira com o chão, fazendo-a
oscilar sobre uma superfície lisa. O que equivale a diminuir a
resistência nos fios, no caso das ondas... elétricas.
|
|
2) Produzir uma onda maior, balançando a mangueira com
mais força é o mesmo que transmitir sinais telefônicos mais
fortes.
|
|
3) Aumentar a massa ou peso da mangueira, enchendo-a de
água, por exemplo. Isso equivale a aumentar a
indutância da linha telefônica.
|
|
A terceira possibilidade é a menos óbvia e mais interessante. Aumentando a
massa ou
inércia da mangueira, faz com que essa perca energia mais
lentamente e sua onda alcança maiores distâncias. Portanto, se rechearmos a
mangueira com bolas de chumbo e repetirmos a experiência descrita
anteriormente, veremos que a onda perderá menos energia pelo atrito, indo ainda
mais longe. Ou seja, se a mangueira tiver massa maior, a onda que fizermos nela
será mais lenta, porém perderá menos energia em seu deslocamento. O mesmo pode
ser feito colocando bobinas de carga ao longo dos fios, que fazem com que as
oscilações elétricas vão mais longe, antes de ter sua intensidade diminuída.
|
 |
Uma onda amortecida, que vai se enfraquecendo gradualmente.
O uso de bobinas de carga, embora pareça simples, exige cálculos
bastante complicados. Esta foi a primeira ocasião em que os
pesquisadores que trabalhavam na melhoria da comunicação
elétrica, precisaram empregar uma teoria física sofisticada com
cálculos matemáticos complexos.
O inglês Oliver Heavisidem, operador de telégrafo entre 1868 e
1874, desenvolveu na década de 1880, uma teoria sobre o uso de
bobinas. Apesar de sua experiência prática com a
produção e recepção de sinais elétricos por
fios, seu principal trabalho era teórico e provava que a alta
indutância ajuda a manter a transmissão das
ondas
eletromagnéticas a longas distâncias. Por ser um
trabalho de difícil compreensão, pois exigia conhecimentos de
matemática avançada, não foi usado pelos engenheiros de
telecomunicações. Para entendermos o complexo trabalho de
Heavisiden, vamos fazer a seguinte analogia:
Imagine um objeto pendurado em uma mola. Se você puxá-lo para
baixo e depois soltá-lo, ele oscilará pra cima e pra baixo. Se a
mola for fraca, as oscilações serão lentas, se forem
fortes, serão mais rápidas. Se o objeto e a mola estiverem no ar,
as oscilações se tornarão lentamente mais fracas devido
à resistência do ar. Em cada oscilação, o objeto
perde energia passando-a para o ar. Se a mola e o objeto estiverem dentro de um
líquido, como a água, por exemplo, veremos as
oscilações diminuírem muito mais rapidamente. Ou seja,
quanto maior a resistência ao movimento que o ar ou o líquido
produzirem, mais depressa as oscilações vão diminuir.
Como funciona...
A duração das oscilações dependerá de um outro fator: a
massa do objeto. Um objeto "leve" ou de pequena massa, não
armazena muita energia e pára de oscilar mais rápido em comparação a um objeto
"pesado" ou de grande massa. Se colocarmos um cubo de plástico e um de chumbo,
ambos do mesmo tamanho, presos a duas molas idênticas, dentro do mesmo líquido,
puxando e soltando a mola do mesmo modo, o cubo de plástico vai parar de
oscilar mais depressa do que o de chumbo. Isso ocorre porque as oscilações do
objeto de chumbo são mais lentas, porém de maior duração.
|
Quando uma
onda se propaga em uma corda ou mola, ocorre algo parecido: ela
vai perdendo energia e se enfraquecendo. Porém, este amortecimento
depende do lugar em que a corda está – no ar, na água ou
encostada no chão. A distância atingida pela onda, como já
foi visto, está diretamente relacionada, entre outras coisas, com a
grossura da mola, o que influencia na rapidez com que a energia é
perdida. Ou seja, a perda de energia é mais rápida se a corda for
fina e leve, porque ela tem pouca capacidade de armazenar energia, ao
contrário de uma corda grossa que demora mais tempo para ficar fraca.
Quando aumentamos a
massa da corda tornando-a grossa, estamos na verdade aumentando
sua
indutância ou “
inércia”. Heaviside calculou o efeito da
indutância na propagação de
ondas
eletromagnéticas e defendeu o uso de
bobinas intercaladas nos fios para melhorar a transmissão
dos sinais telefônicos. O efeito da indutância consiste
basicamente, em armazenar energia sob forma de campos magnéticos.
Como funciona...
Quando uma corrente elétrica passa por um fio, ela produz um campo
magnético a seu redor. Se enrolarmos um fio, formando uma bobina,
criaremos um campo magnético muito mais forte, com a mesma corrente
elétrica que diminui mais lentamente, servindo como reservatório
adicional de energia.
|
A teoria de Heaviside foi ignorada por alguns engenheiros e rejeitada por
outros. O diretor do serviço de telégrafos da Inglaterra nessa
época, William H. Preece defendeu as antigas fórmulas
empíricas de William Thomson, que levavam em conta apenas a
resistência R e a
capacitância C dos fios.
Sua fórmula dizia que uma linha só poderia ser usada quando C.R
fosse menor que 15.000. Porém, mesmo após verificar que, em
certos casos, as linhas podiam ser usadas com C.R superior a
50.000, não houve suspeita de que a teoria de Preece estivesse errada.
1.2. Pesquisas sobre as bobinas de carga
A análise das bobinas de carga foi um problema científico
altamente complexo, que só podia ser resolvido por pesquisadores com
grande conhecimento sobre a teoria eletromagnética. Os primeiros
inventores do grupo Bell, sem formação científica,
não tinham esse tipo de conhecimento; eram dotados de grande capacidade
de trabalho e criatividade, porém, com esta limitação.
Hammond V. Hayes
O primeiro cientista, propriamente dito, contratado pela empresa de Bell foi
Hammond V. Hayes que trabalhou lá de 1885 a 1907. Doutor em
Física, formado por excelentes universidades como Harvard University e
Massachusetts Institute of Technology, dedicou-se à
solução de muitos problemas, especialmente o da
instalação de baterias elétricas nas centrais
telefônicas, o que eliminou a necessidade de baterias em todas as casas.
Este processo se generalizou em torno de 1900 quando Hayes aperfeiçoou o
sistema telefônico, sem resolver, entretanto, os problemas como as
transmissões à longa distância.
Pouco tempo depois, em 1890, a empresa de Bell contratou outro cientista: John
Stone Stone. Ele havia estudado com Rowland (físico norte-americano) e
conhecia profundamente o trabalho de Heinrich Hertz, as ondas
eletromagnéticas e os estudos teóricos de Heaviside, usando
inclusive, alguns de seus resultados para reduzir o ruído das linhas
telefônicas. Desde 1893 estava convencido de que era necessário
aumentar a indutância das linhas, sugerindo o uso de bobinas em
intervalos regulares nas linhas telefônicas.
Porém, não chegou a instalar este sistema, pois tinha
dúvidas a respeito de sua viabilidade, tanto em relação ao
aumento de custos quanto de resistência elétrica. Receava
também que as bobinas de uma linha causassem interferência nas
outras, o que, aliás, já havia sido observado em alguns casos.
Nas
centrais telefônicas, existia uma série de
transformadores que ficavam próximos uns dos outros,
recebendo sinais de alta voltagem e baixa corrente dos vários
assinantes, transformando-os em baixa voltagem e alta intensidade de corrente
nos receptores. A presença de muitos transformadores próximos
fazia com que eles se afetassem mutuamente, produzindo “linhas
cruzadas”, ou seja, uma pessoa podia ouvir o que as outras conversavam.
Em 1893, A. N. Mansfield fez os primeiros testes de colocação de
bobinas ao longo da linha telefônica que ia de Nova Iorque a Chicago, nos
EUA. A tentativa, porém, não foi bem planejada, porque Mansfield
não conhecia bem a teoria e, por isso, analisou precariamente as
características necessárias às bobinas e as
distâncias em que deveriam ser colocadas. Não é preciso
dizer que os resultados foram negativos.
George A. Campbell
George A. Campbell foi um terceiro importante pesquisador contratado pela
empresa, no final de 1897. Seu primeiro desafio, passado por Hayes, foi o de
estudar os arranjos necessários à instalação de
baterias nas centrais telefônicas, substituindo as baterias existentes em
cada residência. Em seguida, começou a estudar a
colocação de bobinas de carga nas linhas telefônicas.
Estudou no Massachusetts Institute of Technology, e lá aprendeu a teoria
de Heaviside, no entanto, não tinha clareza sobre a
aplicação da teoria. Poderia aumentar a indutância de um
fio enrolando-o na forma de uma bobina ou
solenóide, mas via que, se todo fio entre duas cidades
tivesse essa forma, os gastos seriam enormes e a resistência
elétrica cresceria tanto que talvez anulasse o efeito positivo do
aumento da indutância, como Stone temia. Campbell imaginou então
que seria possível colocar algumas bobinas ao longo do fio, ao
invés de uma única, de um extremo ao outro da linha. Heaviside
já havia sugerido esta possibilidade em 1893, sem, no entanto, estudar
detalhadamente suas conseqüências.
Saiba mais...
De acordo com a teoria de Heaviside, a atenuação A
de um sinal depende principalmente da resistência R, da
capacitância C e da indutância L da
linha (por unidade de comprimento), de acordo com a fórmula:
Podendo, portanto, diminuir a atenuação A reduzindo
a resistência R e a capacitância C,
ou aumentando a indutância L da linha.
|
Esta fórmula foi pensada, considerando linhas homogêneas, ou seja,
com as mesmas características em todos os pontos. Ao introduzir bobinas,
espaçadas entre si na linha, a equação de Heaviside
poderia não funcionar mais – e até então, não
havia uma fórmula para o caso de bobinas intercaladas no fio.
Durante os três últimos anos do século XIX, Stone, Campbell
e Hayes trabalharam para melhorar a qualidade dos cabos telefônicos.
Stone percebeu um problema que ainda não havia sido notado: ao conectar
cabos e fios de diferentes tipos, ou seja, com diferentes propriedades
elétricas, os sinais telefônicos podiam encontrar dificuldades em
passar totalmente pelo ponto de união entre eles, pois uma parte do
sinal telefônico é refletido, reduzindo muito a eficiência
da linha.
Saiba mais...
Duas comparações podem ajudar a esclarecer o problema. Quando a
luz passa do ar para a água ou por um vidro, uma parte dela é
refletida na superfície de separação. A luz só
não é refletida ao passar de uma substância transparente
para outra, quando ambas têm o mesmo índice de
refração. Algo semelhante ocorre com as ondas produzidas em
cordas e molas. Se amarrarmos uma corda fina em uma corda grossa e produzirmos
nela uma onda, uma parte dela será refletida ao chegar na emenda entre
as cordas. Para que o impulso não seja refletido, é preciso que a
densidade das duas cordas - massa por comprimento - seja igual.
|
No caso dos sinais telefônicos, a condição básica
para que o sinal passe de um cabo ao outro sem reflexão é,
igualmente, que ambos os lados tenham a mesma
impedância – característica elétrica que
depende da resistência, capacitância e indutância dos dois
sistemas.
Quando há uma corrente contínua em um fio, temos a seguinte
relação:
I = V / R
Quando a corrente é alternada, vale uma relação bastante
semelhante, mas no lugar da resistência R é
utilizada a impedância Z. Então temos:
I = V / Z
A impedância é dada por uma fórmula complicada e depende da
freqüência f da corrente alternada. Quando a
capacitância é baixa, a fórmula é esta:
Essas fórmulas são válidas quando a indutância
está distribuída uniformemente pela linha. No caso de bobinas
espaçadas regularmente pela linha, a fórmula é totalmente
diferente. Em meados de 1899, Campbell conseguiu calcular o comportamento da
linha com bobinas distribuídas, estabelecendo que: se as bobinas
estiverem distribuídas a distâncias bastante inferiores ao menor
comprimento de onda dos sinais telefônicos, o resultado será
satisfatório. Ou seja, quatro ou cinco bobinas por comprimento de onda
era uma solução razoável, com dez, o resultado era
praticamente o mesmo da distribuição contínua de
indutância.
Uma parte do estudo de Campbell foi teórica e, apenas em 1899, tiveram
início seus testes e experimentações introduzindo 5
bobinas por milha em uma linha de 20 milhas ou seja, 100 bobinas em uma linha
de 32 km.
Comparando a linha experimental com as bobinas a uma linha de mesma
resistência sem elas, os pesquisadores puderam observar que a
transmissão havia melhorado muito e que os resultados eram bem
próximos das previsões teóricas. Isso lhes deu grande
confiança no sistema e na teoria de Heaviside que passava a ser adaptada
aos problemas práticos da telefonia, de maneira independente pelos
pesquisadores: Michael I. Pupin e George A. Campbell, pesquisador da
American Telephone & Telegraph (AT&T) – empresa sucessora
da Bell.
A idéia de colocar bobinas em intervalos regulares, aumentando a
indutância da linha, foi patenteada pelo físico inglês
Sylvanus Thompson em 1891, o que fez um especialista em patentes da
própria AT&T acreditar, em 1899, que não seria
possível patentear o sistema de Campbell.
Thompson que pensou na colocação de bobinas conectando pares de
fios telefônicos, ao invés de intercalá-las em
série, não determinou as propriedades e o espaçamento
necessário às bobinas.
Campbell estudou detalhadamente a teoria das linhas de transmissão,
obtendo seu título de doutor na Universidade de Harvard em 1901 com um
trabalho sobre o tema. Porém, antes que chegasse a resultados
práticos definitivos, Pupin obteve uma patente para o método.
Esquema de uma linha telefônica com
bobinas de carga (loading coils)
Idvorsky Pupin, professor da Universidade da Columbia estudou,
independentemente de Campbell, as bobinas de carga e, em maio de 1900, submeteu
um pedido de patente desse sistema que lhe foi concedida no mês seguinte.
Michael I. Pupin
Em junho de 1900, a AT&T, tomando conhecimento da patente de Pupin, tentou
anulá-la, alegando que Campbell já havia desenvolvido um sistema
semelhante. Percebendo que isso não seria possível, a AT&T
fez um acordo e comprou a patente de Pupin por 185 mil dólares iniciais,
mais 15.000 dólares anuais, durante os 17 anos de sua validade. A
empresa chegou a pagar quase meio milhão de dólares pela patente,
o que foi rapidamente recuperado: a AT&T lucrou um milhão de
dólares com a instalação do sistema apenas em Nova Iorque.
1.3 Utilização das bobinas de carga
Passar a teoria para a prática foi um grande desafio, pois, dentre
muitos outros motivos, era preciso que as bobinas tivessem
características adequadas, como por exemplo: fios de baixa
resistência elétrica, ou seja, que não fossem muito finos,
e núcleo de um material magnético que funcionasse bem com as
correntes elétricas variáveis do sinal telefônico. Como
estas bobinas não existiam, foi preciso inventá-las.
Com isso, surgiram problemas secundários como linhas cruzadas, grandes
“vazamentos” de energia, perigos com raios, reflexão das
ondas nas conexões entre as linhas com e sem carga, e nos aparelhos
telefônicos, todos criados pelas bobinas.
Pupin sugeriu que fossem usadas, ao invés das bobinas
cilíndricas, bobinas toroidais - em forma de pneu - com diâmetro
de aproximadamente 10 cm, colocadas a uma distância de no mínimo
uma, no máximo três
milhas, uma da outra, aumentando a carga das linhas
telefônicas. O objetivo com isso, era fazer com que o campo
magnético ficasse “preso” dentro do núcleo, impedindo
assim que uma bobina influenciasse nas outras. Isso, de fato, melhorou muito
seu funcionamento, o que motivou a adoção deste formato para todo
o sistema.
Esquema de bobina de carga toroidal (esquerda)
e fotografias de bobinas de carga (loading coils)
do início do século XX (direita)
Em 1903, os principais detalhes de utilização das bobinas de
carga estavam resolvidos, e o planejamento das linhas feito de forma eficiente
e econômica, permitindo que, mesmo tendo sido pensado para linhas
telefônicas de longa distância, o sistema fosse usado também
nas redes urbanas, até então pequenas.
Os cabos telefônicos subterrâneos possuíam uma série
de vantagens, mas ainda eram inviáveis para a transmissão de
sinais telefônicos a grandes distâncias, pois perdiam força
rapidamente. Em 1904, este problema foi solucionado, também por meio das
bobinas de carga, que permitiram a transmissão subterrânea de
sinais telefônicos para maiores distâncias, com fios mais finos e
com grande melhoria na qualidade do som. Tudo isso resultou em grande economia
para as empresas de telefonia que chegaram, em alguns casos, a cortar pela
metade seus custos e, em outros, a um quarto do preço dos cabos sem
bobinas de carga.
Em 1911, foi possível conectar as cidades de Nova Iorque e Denver por
telefone, e com isso, verificar que, mesmo com as bobinas, o sinal
telefônico se enfraquecia ao alcançar determinada distância,
sendo necessário recorrer ao uso de fios de cobre com a grossura de um
lápis para fazer tal transmissão. Não é preciso
dizer que isso encareceu bastante a estrutura.
O único modo de atingir distâncias maiores foi produzindo um tipo
de repetidor telefônico que não transmitisse ou criasse
ruídos e distorções graves, o que só foi
possível após o desenvolvimento da eletrônica.
Os estudos na área da eletrônica tiveram início no
começo do século XX e em 1906 Lee de Forest desenvolveu os
primeiros tubos de vácuo que permitiam amplificar uma corrente
elétrica, cuja evolução, em 1912, foi os chamados
“tríodos”, as primeiras “válvulas
eletrônicas” que funcionaram razoavelmente.
Posteriormente, sob a coordenação de Harold D. Arnold, alguns
engenheiros se juntaram para pesquisar o tema. Como resultado da pesquisa, em
1915, foi inaugurada a primeira linha telefônica que usava as
válvulas eletrônicas para amplificar os sinais. Apesar da grande
melhoria na comunicação a distância trazida pela pesquisa e
pelos experimentos, o uso de dispositivos eletrônicos se generalizou
somente na década seguinte.
Durante toda a década de 1910, foram desenvolvidas técnicas
eletrônicas que, somente na década de 1920, substituíram as
bobinas de carga nas linhas de longa distância. As bobinas, entretanto,
não desapareceram; continuaram a ser usadas nas linhas
subterrâneas de curta distância durante décadas, pois
melhoraram muito a transmissão de sinais telefônicos nos cabos.
Bibliografia:
- MARTINS, Roberto - A Fundamentação da Telefonia através da História - Parte 1:
Da Invenção ao Início do Século XX (pesquisa realizada para a
Fundação Telefônica, em 2002)
Voltar

|